Pandemia?

Uma pandemia não é mais que uma epidemia de uma doença infecciosa que se espalha rapidamente pela população de uma área geográfica vasta (continentes ou mesmo todo o planeta). De acordo com a Organização Mundial da Saúde, uma pandemia pode começar quando se reúnem estas três condições:

  • O aparecimento de uma nova doença na população humana, contra a qual não existe defesa imunitária.

  • O agente patogénico infecta humanos e causa uma doença mais ou menos grave.

  • O agente espalha-se de forma fácil e sustentada entre humanos.

Assim, uma doença não é considerada pandémica só por estar generalizadamente difundida ou por ter uma taxa de mortalidade elevada, terá também que ser causada por um agente infeccioso. O cancro, por exemplo, é responsável por um número grande de mortes, mas não é considerada uma pandemia porque a doença não é, de modo geral, contagiosa. O inverso pode dizer-se da SIDA, que já é considerada uma pandemia.

Resumindo, quando uma doença existe apenas numa região é considerada uma endemia, uma situação que frequentemente é continuada no tempo, mas se a doença for transmitida a outras populações passa a ter a designação de epidemia. As epidemias, ao alastrarem de forma desequilibrada por continentes inteiros e, eventualmente, por todo o mundo, passam a ser consideradas pandemias.

Pandemia de gripe de 1918 matou 25 milhões de pessoas numa época, feito que a SIDA levou 25 anos a alcançar

A Organização Mundial de Saúde (OMS) desenvolveu um plano de preparação global que define as fases de uma pandemia e faz recomendações para medidas nacionais a tomar antes e durante uma pandemia. As fases são:

Período de Interpandemia

  • Fase 1: Nenhum novo subtipo de agente patogénico foi descoberto em humanos.

  • Fase 2: Nenhum novo subtipo de agente patogénico foi descoberto em humanos, mas uma variante animal de uma doença ameaça os humanos.

Períodos de alerta de Pandemia

  • Fase 3: Infecção humana com um subtipo novo mas sem contágio pessoa a pessoa.

  • Fase 4: Pequenos focos com contágio pessoa a pessoa bastante limitado.

  • Fase 5: Focos maiores mas com contágio pessoa a pessoa localizado.

Período de Pandemia

  • Fase 6: Pandemia em curso: aumenta a transmissão contínua na população em geral.TOPO

Gripe A

A actual pandemia de gripe (2009), inicialmente apelidada gripe mexicana, posteriormente gripe suína e, finalmente, em Abril de 2009 gripe A, resulta de uma variante de gripe suína cujos primeiros casos ocorreram no México em meados de Março de 2009.

Tudo começou em La Gloria, distrito de Perote, a apenas 10 km da suinicultura Carroll, subsidiária da Smithfield Foods. O paciente zero foi um menino de 4 anos, Edgar Hernandez. O seu organismo deve ter sido lar da última alteração do vírus, que se adaptou à transmissão pessoa a pessoa, ainda que já em Dezembro de 2008 já tivesse sido detectada uma estirpe de gripe desconhecida em rápida propagação. 

A gripe A espalhou-se rapidamente por todo o mundo, começando pela América do Norte e pouco tempo depois a Europa e Oceania. O vírus responsável foi identificado como Influenza A subtipo H1N1, uma variante nova da gripe suína. Ele contém material genético de vírus aviários, suínos (europeus e asiáticos) e humanos. 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou em 25 de Abril que a epidemia é um caso de "emergência na saúde pública internacional", significando que os países em todo o mundo deverão acentuar a vigilância em relação à propagação do vírus. No dia 27 de Abril a mesma organização elevou o nível de alerta pandémica para 4, o que significa que se verifica transmissão pessoa a pessoa, com risco de surtos localizados. Dois dias depois, no dia 29, OMS elevou para 5 o nível de alerta, o que significa que há a transmissão da doença entre pessoas em pelo menos dois países com um risco de pandemia iminente. No dia 11 de Junho o nível de alerta subiu ao máximo (nível 6) e foi decretada a pandemia, visto esta existir em mais de 75 países e em vários continentes.TOPO

Influenzavírus A subtipo H1N1
Influenza A - late passage.jpg

Microfotografia do influenzavírus A subtipo H1N1 (clique para imagem maior)

Esquema da estrutura do influenzavírus

O influenza A subtipo H1N1, também conhecido como A(H1N1), é um subtipo de influenzavírus A e a causa mais comum da gripe (influenza em inglês) em humanos. 

O influenzavírus A é um género da família de vírus Orthomyxoviridae, que inclui uma única espécie: o influenza A que causa gripe (influenza em inglês) em aves e mamíferos.

Os ortomixovírus são vírus de tamanho médio (80 a120 nm), cujo material genético é composto por RNA e que forma partículas pleomórficas, predominante esféricas mas por vezes filamentosas. Neste grupo estão descritos os vírus da gripe A, B e C:

  • O tipo A promove doença moderada a severa em todas as faixas etárias e pode causar epidemias/pandemias, afectando até animais;

  • O tipo B afecta unicamente o Homem, principalmente crianças, causando epidemias ligeiras;

  • O tipo C não é epidémico.

Os tipos A e B são os mais comuns. 

As variantes são identificadas e designadas de acordo com o isolado a que se assemelham e com o qual se presume partilharem linhagem, hospedeiro típico, subtipo e taxa de mortalidade associada. As principais variantes, de acordo com o hospedeiro típico, são:

  • Gripe das aves

  • Gripe humana

  • Gripe suína

  • Gripe equina

  • Gripe canina

Modo de funcionamento das proteínas virais hemaglutinina e neuraminidase

Os subtipos de influenzavírus A são designados através de um número H (de hemaglutinina (HA), uma glicoproteína) e de um número N (de neuraminidase (NA), enzima hidrolase glicosídica).

A hemaglutinina permite a entrada do vírus na célula-alvo, enquanto a neuraminidase hidrolisa os resíduos celulares de ácido siálico, aos quais estão ligadas as novas partículas víricas formadas no interior da célula hospedeira (viriões). Esta hidrólise liberta os vírus, que podem agora invadir novas células. Esta proteína vírica de superfície também hidrolisa o ácido siálico do muco que banha as células epiteliais do sistema respiratório, facilitando a invasão das vias aéreas superiores pelo vírus. 

Criaram-se inibidores da neuraminidase, que imitam o substrato natural desta enzima e bloqueiam o seu centro activo, para impedir a propagação dos viriões, diminuindo assim a duração da infecção e atenuando os seus sintomas. Esta nesta situação o oseltamivir, comercializado com a designação Tamiflu e o zanamivir, comercializado com a designação Relenza. Dado que a replicação do vírus atinge o seu máximo 24 a 72 horas após o desencadear da doença, estes fármacos devem ser administrados o mais cedo possível, de preferência nas primeiras doze horas.

Existem 16 antigénios HA diferentes (H1 a H16) e nove antigénios NA (N1 a N9) para influenza A. Até há pouco tempo, eram reconhecidos 15 tipos, mas foi isolado um novo tipo (H16) em guinchos-comuns capturados na Suécia e Holanda em 1999 e publicado na literatura em 2005. 

É precisamente esta variabilidade que permite aos influenzavírus escapar à imunidade humana, daí a necessidade de obter todos os anos uma nova vacina para a gripe.

Um estudo revelou as crianças não têm imunidade a esta nova estirpe do vírus mas os adultos, especialmente os com idade superior a 60 anos, têm algum grau de imunidade: os adultos entre os 18 e os 64 anos têm 6 a 9% e os mais velhos 33% de reacção.

Foi também determinado que a actual estirpe do vírus H1N1 contém genes de cinco tipos diferentes de influenzavírus: gripe suína norte-americana, gripe aviária norte-americana, gripe humana e dois vírus da gripe suína vulgarmente encontrados na Ásia e na Europa.

Segundos os investigadores, o movimento de porcos vivos entre a Eurásia e a América do Norte parece ter facilitado o cruzamento entre os diversos vírus da gripe suína, levando a múltiplos rearranjos associados à formação de uma nova estirpe de H1N1. Eles também consideram que esta nova pandemia fornece novas evidências para o papel dos porcos domésticos no ecossistema da gripe A. TOPO

Sintomas da gripe A H1N1

Os principais sintomas da gripe A H1n1 podem ser resumidos pela imagem ao lado e podem ser confundidos com os de uma simples constipação ou com os da gripe sazonal.

As pessoas em maior risco de complicações graves são os idosos com mais de 65 anos, as crianças com menos de 5 anos, mulheres grávidas e todos os que apresentem complicações crónicas, como asma, diabetes, obesidade, problemas cardíacos ou sistemas imunitários fragilizados (como pacientes que tomam medicamentos imunodepressivos ou com SIDA).

Tal como no caso da gripe sazonal, certos sintomas podem exigir atenção médica de emergência. Nas crianças, atenção redobrada para sinais de perturbações respiratórias, a pele e lábios azulados, desidratação, respiração acelerada, sono excessivo ou irritabilidade. Nos adultos, falta de ar, dores no peito ou abdómen, tonturas repentinas ou confusão podem também indicar necessidade de tratamento médico de emergência.

Tanto em crianças como em adultos, vómitos persistentes ou o retorno de sintomas de gripe, como tosse e febre, podem significar complicações que exigem tratamento médico.

Sintomas

Constipação

Gripe sazonal

Gripe A

Febre

rara

febre inferior a 38ºC

febre súbita superior a 39ºC

Tosse

tosse fraca a moderada

frequente

seca e contínua

Dores musculares

ausentes

presentes

intensas

Nariz entupido

presente

raro

raro

Arrepios

ausentes

presentes

fortes

Cansaço

ausente

presente

intenso

Espirros

presentes

raro

raro

Ardor nos olhos leve leve intenso

Dores de cabeça

ausentes

presentes

intensas

Dores de garganta

presentes

presente

ausentes

Desconforto no peito

raro

presente

intenso

Náuseas e vómitos

ausente

ausente

presente

Diarreia

ausente

ausente

presente

Sintomas

desenvolvem-se ao longo de vários dias

surgem no espaço de 3 a 6 horas

surgem no espaço de 3 a 6 horas

Complicações congestão dos seios nasais ou dor de ouvidos bronquite, pneumonia; eventualmente fatal bronquite, pneumonia; eventualmente fatal
Prevenção nenhum vacina anual e antivirais (consulte o médico) vacina e antivirais (consulte o médico)
Tratamento alívio temporário dos sintomas antivirais (consulte o médico) antivirais (consulte o médico)

Alguns peritos consideram que pessoas com doenças crónicas que apresentem sintomas de gripe devem consultar os seus médicos antes de  se dirigirem a uma emergência hospitalar cheia de pessoas doentes, pois podem colocar-se em maior risco desnecessariamente. Esta situação é particularmente verdade para mulheres grávidas.

As infecções pelo vírus da gripe podem degenerar em casos de pneumonia, uma situação potencialmente mortal. A maioria das mortes até agora associadas à gripe A H1N1 foram atribuídas a pneumonias.

Os sintomas da gripe A podem, então, ser resumidamente comparados com os da constipação e da gripe sazona no quadro ao lado.  TOPO

Contágio O contágio da gripe A ocorre de forma semelhante ao da gripe sazonal. O vírus transmite-se directamente de pessoa para pessoa através de gotículas libertadas quando se fala, tosse ou espirra. Os contactos mais próximos (a menos de 1 metro) com uma pessoa infectada podem representar, por isso, uma situação de risco. 

O contágio pode também verificar-se indirectamente quando há contacto com gotículas ou outras secreções do nariz e da garganta de uma pessoa infectada, nomeadamente através de maçanetas das portas, teclados de computador, e outras superfícies de utilização pública. Estudos demonstraram que o vírus permanece activo várias horas nesse tipo de superfície (entre 3 e 8 horas), pelo é muito importante que sejam limpas regularmente.

Não há hipótese de contaminação pelo consumo de carne ou outros produtos suínos, pois cozinhá-los a 70ºC é suficiente para destruir o vírus. Note-se, ainda assim, que nem sequer foram identificados porcos doentes no local de origem da epidemia, no México.

O período de incubação da gripe A varia entre um e sete dias, após o contágio, e o contágio pode ocorre enquanto existirem sintomas, o que nos leva a considerar, em média, um período crítico de cerca de 10 dias.TOPO

Prevenção

A prevenção foca-se principalmente na tentativa de controlar a propagação descontrolada do vírus H1N1 na população. As principais recomendações são:

  • evite tocar na boca e no nariz;

  • lave as mãos cuidadosamente com sabão e água ou desinfecte-as com gel-álcool regularmente, especialmente se tiver que lidar com superfícies potencialmente contaminadas;

  • evite o contacto próximo (a menos de um metro) com pessoas que possam estar doentes;

  • reduza ao máximo o tempo passado em locais fechados e sobrelotados;

  • melhore a qualidade do ar de sua casa ou local de trabalho abrindo as janelas;

  • tenha bons hábitos de saúde, incluindo horas de sono adequadas, alimentação saudável e actividade física;

  • cubra o nariz e boca com um lenço de papel quando tossir ou espirrar e deite-o imediatamente para o lixo;

  • se apresenta sintomas de gripe, permaneça em casa pelo menos 24 depois de os sintomas terem desaparecido, com a única excepção de obtenção de cuidados médicos;

  • se está doente mantenha-se afastado de outros tanto quanto possível para evitar o contágio.

TOPO

Tratamento

Os peritos referem várias formas de aliviar os sintomas, incluindo ingestão de grande quantidade de líquidos e descanso total, sopas para aliviar a congestão e medicamentos de venda livre para aliviar as dores. Ácido acetilsalicílico (comercializado com a designação Aspirina), por exemplo, é muito eficaz no tratamento da febre em adultos, ainda que em crianças e adolescentes deva ser evitada devido ao risco de síndrome de Reyes. Note-se, no entanto, que estes medicamentos de venda livre apenas aliviam os sintomas, não destroem o vírus.

Os médicos aconselham as pessoas a não tomar antibióticos, grandes doses de vitaminas e minerais ou medicamentos homeopáticos para prevenir a gripe ou as constipações.

Medicamentos antivirais poderão ser administrados aos que fiquem gravemente doentes, especialmente os eficazes contra a gripe A H1N1 como o oseltamivir (Tamiflu) e o zanamivir (Relenza). Estes medicamentos, para serem eficazes, devem ser administrados no espaço de dois dias após o início dos sintomas e, para evitar a escassez, apenas aos mais vulneráveis e em risco de complicações graves. Pessoas saudáveis que apanhem gripe suave ou moderada não precisam destes antivirais.

A utilização indiscriminada dos antivirais para prevenir e tratar a gripe pode facilitar o surgimento de estirpes resistentes, o que tornaria o combate à pandemia muito mais difícil. É sabido que as pessoas frequentemente não cumprem o plano de tratamento e as doses recomendadas até ao fim, estimulando a resistência.

Ambos os antivirais podem ter efeitos secundários, nomeadamente náuseas, vómitos, perda de apetite e falta de ar, tendo sido recomendado aos pacientes que os conheçam antes de tomarem os medicamentos. A Organização Mundial de Saúde já alertou para o risco da compra de medicamentos antivirais online, estimando que metade deles são contrafeitos e potencialmente perigosos.  TOPO

Alimentação

A gripe é uma doença que requer cuidados alimentares relativamente simples. 

No caso de pessoas saudáveis, que não sofrem de doença crónica, a hidratação é o principal cuidado a ter em conta: a febre alta, vómitos, diarreia e tosse provocam naturalmente desidratação, o que piora o estado do doente. É portanto fundamental manter o corpo bem hidratado. As pessoas com doenças crónicas (por exemplo diabetes, asma, obesidade, doença cardíaca, etc.) têm também que se preocupar com a hidratação, mas devem sempre seguir as indicações do médico de família, que terá em consideração esse facto.

Frequentemente quem está com gripe sente astenia, isto é, fraqueza, cansaço e falta de apetite. Mas, deixar de comer enfraquece ainda mais o doente e dificulta a sua recuperação. Tudo se agrava porque quanto mais fraca e cansada uma pessoa se sente, menos come. Para quebrar este ciclo vicioso deve-se procurar comer em pequenas quantidades mas frequentemente. Neste contexto, e pela importância que já foi mencionada, a hidratação também deve seguir este padrão através de diversas bebidas e alimentos:

  • água simples ou aromatizada (com limão, canela …);

  • tisanas ou infusões (tília, camomila, erva cidreira…..);

  • sumos de fruta naturais ou néctares de fruta;

  • leite e/ou iogurtes e outros leites fermentados;

  • sopa, de preferência de hortaliças e legumes;

  • fruta.

No entanto, nem sopa nem as diversas bebidas devem estar demasiado quentes, para que não provoquem calor e o doente transpire ainda mais. Pode, por exemplo, preparar as tisanas e infusões e deixá-las arrefecer em recipiente tapado, para ir bebendo ao longo do dia. Beba sempre que tiver sede e beba mesmo que não a tenha! Com febre, a ingestão deve ser superior a 3,7 litros para homens e 2,7 litros para mulheres, ou seja, cerca de 16 a 12 copos por dia, respectivamente.

Registe-se, no entanto, que nem todas as bebidas hidratam. Pelo contrário, as bebidas com álcool (fermentadas ou destiladas) desidratam pois o álcool etílico reduz a produção de hormona anti-diurética e aumenta assim o débito urinário. Para além disso provoca vasodilatação e transpiração. Também as bebidas demasiado açucaradas não contribuem para hidratar.TOPO

Temas relacionados: Organização Mundial de Saúde (OMS)   Portal da Saúde - Vírus da Gripe A (H1N1)  

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