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O verdadeiro problema é o aumento do consumo, não o aumento da população ... 

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Num editorial publicado recentemente, Fred Pearce veio defender que o foco colocado sobre a taxa de crescimento da população nos países em desenvolvimento e o respectivo impacto ambiental é desadequado, pois quando se trata de eco-impactos a questão mais importante é o aumento da taxa de consumo dos recursos naturais, pela qual os países desenvolvidos continuam largamente responsáveis.

Um bom exemplo desta questão usado por Pearce é o crescente número de locais onde a chamada 'bomba populacional' esta a desarmar-se a si própria: os peritos em planeamento familiar costumavam alegar que as mulheres só começariam a ter menos filhos quando fossem instruídas ou escapassem à pobreza, como as ocidentais. Mas digam isso à mulheres do Bangladesh actual.

Recentemente, Pearce conheceu Aisha, Miriam e Akhi, três mulheres de famílias operárias pobres do Bangladesh. Entre elas, tinham 22 irmãos mas diziam que, no total, tencionavam não ter mais que seis filhos. O seu país é um dos mais pobres do mundo e as mulheres são das menos instruídas, quase sempre casando ainda adolescentes mas, em média, já só têm três filhos.

A taxa de natalidade da Índia é ainda inferior, com 2,8 crianças por mulher e no Brasil, país fortemente católico, a maioria das mulheres têm dois filhos e nada que os padres locais possam dizer impede milhões delas de laquearem as trompas. Uma piada local diz que é preferível ser esterilizada a usar métodos contraceptivos porque assim só se tem que confessar e pedir perdão uma vez. 

As mulheres estão a ter famílias menores porque, pela primeira vez na história, o podem fazer: praticamente foram erradicadas as doenças que matavam a maioria das crianças antes que atingissem a idade adulta logo as mães já não precisam de ter cinco ou seis crianças para garantir a sobrevivência da próxima geração. É por isso que não o fazem.

E o ponto fulcral do argumento de Pearce: com metade do mundo já abaixo da taxa de natalidade necessária à substituição da geração actual e ainda em queda acentuada, a população mundial deverá diminuir no espaço de uma geração.

Essa é uma boa notícia para o ambiente, garantidamente, mas não o fim dos sinais de alarme. Uma ideia avançada por muitos estudiosos do tema é que o excesso populacional está a destruir o planeta mas, como vimos, já não se trata disso.

A subida do consumo é actualmente uma ameaça de longe superior ao ambiente quando comparada com a subida do efectivo populacional humano, e a maior parte desse consumo extra continua a acontecer nos países ricos, que há muito deixaram de se preocupar com o crescimento da sua população.

Virtualmente tudo o que resta de crescimento populacional no mundo reside nos países mais pobres e a metade mais pobre do planeta é responsável por apenas 7% das emissões de carbono. As emissões de carbono de um único americano actualmente são equivalentes às de quatro chineses, 20 indianos, 40 nigerianos ou de 250 etíopes.

Com que cara vêm os amigos do ambiente de um qualquer país ocidental culpar os mais pobres pelo estado do planeta? Alguns deles precisam de olhar bem para si próprios antes de falar dos outros e é neste aspecto que Pearce vai o cerne da questão em termos de definição do problema e apontar o dedo a quem é devido. 

Estatísticas recentes mostram que as emissões chinesas per capita são equivalentes às de França (ou seja, quatro vezes inferiores às americanas) e o modelo económico dominante do consumismo continua a apregoar que progresso é expandir os gastos com o consumo, ignorando as consequências ambientais do processo.

Uma análise às tabelas de pegada ecológica de diferentes países mostra que as tentativas de igualar os níveis de consumo considerados normais nos Estados Unidos, Europa e outros países ricos só estão a causar mais destruição ecológica, conflitos sociais ou ambos.

Uma distribuição razoável dos recursos do planeta entre humanos e não humanos dita que aqueles de nós que estão no topo da cadeia comecem a consumir menos, muito menos, e esse é precisamente o ponto que Pearce que fazer passar, apelando a um demorado olhar ao espelho por parte de cada um de nós.

Um estudo recente do Worldwatch Institute mostra que quantidade de consumo poderia ser sustentável a diferentes níveis populacionais: ao nível de consumo americano actual apenas poderíamos ter um bilião e meio de pessoas mas se a população actual do planeta for mantida então todos apenas poderão ter o que o tailandês médio actual tem. Com as projecções populacionais das Nações Unidas para 2050, cada um de nós apenas deverá ter o equivalente à classe média indiana. 

Tudo isto apenas revela a forma como a população e o consumo estão intimamente relacionados. Mesmo que sejamos nós, nos países desenvolvidos, a ter que fazer os maiores ajustes em relação ao que consideramos níveis normais de consumo, todos temos que redefinir o que consideramos riqueza e o que consideramos normal.

 

 

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